sábado, 28 de novembro de 2009



Foi em um dia qualquer, num mês qualquer
No fim da década de 80.
Deu-se um encontro entre o jornalista (anônimo)
e o médico Fred Fredson. esbarram-se
na fila do supermercado "Lumière" em Paris.
O anônimo vestia calças vermelhas
O Fred Fredson calças brancas.
O jornalista comprara um livro de bolso
de Simone de Beauvoir que a dois anos
falecera de pneumonia, levou também
nozes, cigarros e algumas cervejas.
O médico estava levando preservativos,
almôndegas, cigarros e algumas cervejas.
Se olharam com um olhar de fome, de sede
e de vício.
Chegando ao estacionamento, o jornalista
solitário, sorri, sorridente aproxima a ponta do seu cigarro ao cigarro
alheio e acende-o.
Um jornalista e um médico no estacionamento.
desconhecidos, encarniçados, tarados.
trepando na vaga reservada à pessoas especiais, gozaram e gargalharam.
depois cada um seguiu seus destinos. Não trocaram telefone.
O Dr. seguiu pensando
na desculpa que daria a sua esposa, afinal, era domingo
e eles sempre fodiam aos domingos, tinham três filhos,
a mulher não tomava anticoncepcionais, ela fora educada em escolas
Francesas mas era judia e gostava de foder aos domingos
e excepcionalmente era seu aniversário.
O jornalista pelo caminho
achava graça na beleza da torre de ferro
achava graça na beleza da rua solitária e iluminada
beleza que não tinha percebido durante a ida ao supermercado,
beleza que só se manifestara depois da fila e da
trepada na vaga
destinada aos idosos, deficientes e grávidas.


Ultimamente só consigo pensar na vida
isolado no banheiro.
Quando dei por mim percebi que o papel higiênico
tinha acabado.
Como pode tantos metros de papel se esgotarem
em menos de uma semana?
Tenho cagado muito na vida. descarregando
todos os dramas água baixo.
merda, merda, oh merda!


Algum dia [vida] ela ainda
aperta esse botão
e me descarrega esgoto abaixo.

Algum dia eu ainda aperto esse botão
e descarrego todos eles esgoto abaixo.

Uma boceta.
Um rabo.
Um sexo.
Um amor.
Eis meus dilemas
carregados de drama.

Sei onde fica o clitóris, mas nunca
o toquei, o que fazer, eu não sei.
entendo mesmo é de pau e de rabo.
Sobre o rabo. preciso de alguns centímetros de papel higiênico.
Queria muito sexo.
Queria muito amor.
Eis meus problemas.
Agora só me resta sair desse banheiro
para uma xícara de café, eu sou uma coisa que vive sozinho
mas ainda posso sorrir, fechar um baseado e ligar para o amigo
Jean Franklin e fazer-lhe um convite:

"ei, venha me ver, tenho charutos, um baseado e café.
lembrei.
traga seu velho sax, toque e cante suas velhas canções de amor.

Impossível esquecer!


Evito o rádio, o aparelho celular,
a tv, essa faz alguns anos que já à evito.
Hoje especialmente os evito para não saber
quantas horas tem.
Quantas horas têm que não te chupo.

Acredito que já é tarde, pois não escuto as pessoas
conversarem. Do meu quarto consigo ouvir
apenas a comunicação entre os cães
reagindo as lamúrias de um cidadão bêbado
que passa cambaleando pela calçada.

O calor é gritante, permaneço deitado.
Já é a setuagésima vez que conto os dedos
dos pés. O sono não me vem.

Ligo o ventilador e entro sob os lençóis.
Cubro-me até a altura dos ombros.
e decido parar de contar os dedos dos pés.
Parei na octogésima vez.
O sono me despreza.

Tento esquecer você Laid Clara
tento esquecer aquele excelente dia
azul- avermelhado, às 17: 30, quando você balançou seu
rabo em minha direção representando a madame "mucama"
numa peça de esquina "mulheres inteligentes, calientes e boas na cama"

segunda-feira, 2 de novembro de 2009


Seis da matina.

João já está de pé, debruçado na janela do quarto

com uma xícara de café nas mãos, uma carteira com exatos vinte cigarros e um isqueiro.

Ele vê o sol imponente e inexplorável.

De repente a inédita sensação de contentamento, gostoso sentido de sorte e sucesso, moveu-se de uma destemida vontade de ser feliz. Estranho desejo para quem a exatamente cinco horas atrás, antes do sono, deitara com um misterioso desejo de satanizar a todos.

Agora resolve fazer do quato um café-concerto.

Combinados -o café e o cigarro- bebeu, fumou ouvindo uma sinfonia e atreveu-se a dançar sozinho na presença da única companhia mais próxima, ainda restaram outras dezenove companhias...

Embalou-se pela música que mesclava em sua letra, cores, amores, lembranças...

Foram cinco minutos suficientes para que as coisas se tornassem muito mais bonitas e sensacionais que a cinco horas passadas.

João decidiu portanto tentar acordar sempre assim, faça sol ou chuvisco.

João sabe o que é a felicidade, joão não é burro nem nada.

Encheu-se de altruísmo, de amor por sí, de amor pela vida.

João é estranho.

João é feliz, um estranho vivente no mundo feliz.

Optou agora por invadir novembro destemidamente, sair do círculo e entrar na reta, passou a observar a vida atenciosamente como quem assiste a um bom filme ou ler Drummond.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O coração amotinado

E os dias que vão passando com esse maldito vazio contido perturbando minhas noites e manhãs de tal forma que nem sinto fome.
O que sinto é sede, de café, o tempo todo, sem leite mas com açúcar, porque de amargo já basta os dias e as noites mal dormidas.

E depois do café, os cigarros que me aquietam, pelo menos no tempo entre um e outro.

Não sei ao certo do que se trata, talvez seja pela falta do trabalho, ou de uma paixão arrebatadora dessas tipicamente, forte e breve, que nos saculejam.

Talvez ainda lembro-me de como funciona.

O que tenho por certo é que emblemático mesmo é o curto espaço de tempo que esse nefano [coração] tem de apreciar a vida e de amar alguém e depois quando vem a quarentena ele se desespera e me perturba, tenho por dentro um coração-amotinado.

Vivo o incomodo de ter um coração afobado.

vivo o incomodo de ter um coração.

Vivo incomodado.

O fato é que ele não pensa, fala, exige.

Mas dizer sem pensar é estar obrigado a irracionalidade.

Um coração portanto que já não pensa, nem diz mas ladra.

Convivo com ele como quem soluça dias a fio...

Não digo -tenho um coração, que bate de 60 a 100 ciclos por minuto- porque dele neca de juízo, acelera e me maltrada.

Ultimamente não somos um, somo cada um por sí.

Funciona assim, é como ter um agregado em casa, um folgado, daqueles que se evita diálogos, do qual ficamos durante muito tempo sem trocar palavra alguma mas agora ele berra, grita desesperado feito um louco exigindo algo que preencha-nos, algo que talvez nunca saberemos possuir;
eu por ser louco e ele por não ter juízo.
E assim o designo: a eterna contra-ordem da minha loucura.

Prouvera Deus que ele continue a bater ou ladrar, que não desfaleça, mesmo sendo poeticamente a sede vazia de meus sentimentos, prouvera Deus que anatomicamente exerça suas funções durante um bom tempo, quiçá eu viva mais alguns anos.

Sigo com ele, fumando e bebendo meu café suave, ele (espero eu) latindo, latejando e pulsando um sangue totalmente despoético, socorro, meu coração não tem idade, não tem idade nem juízo.

sábado, 10 de outubro de 2009

Enquanto isso ela desatina.

Minha grande pequenina,
como é suave essa menina,
tem um cheiro agradável,
cativante e
fascinante
como que de uma flor
daquela roseira mais ou menos
vermelha.
Alegria e euforia,
seu sorriso contagia,
e agradeço pela sorte
no alvorecer de mais um dia
para sentir seu abraço forte
de menina poesia.
Amor,
Ama,
anda...
Caminha...
A
M
A
N
D
Amada
minha.
Des-
cortina
Des-
arruma
Des-
atina
Vomita
continua...
se for preciso grita!
Mas fala
pois tua palavra
fertiliza
e com efeito
me excita.

domingo, 4 de outubro de 2009

"É onde o Rio é mais baiano"

"É onde o Rio é mais baiano".
Onde a colônia resiste até os dias de hoje, o Bairro do rio vermelho mistura-se a todas cores, contrasta seus dias e suas noites e seduzidos, os sedentos se reunem em seus bares, botequins, praias e esquinas para saciar seus espíritos nímios.
De onde "o dragão saiu do mar", da filha do rio, a linda Paraguaçú, do lugar onde dá peixe miúdo, do Largo que era de Santana e hoje é da Dinha, da idéia de Alípio, da casa 33 do filho de Oxossi, do eterno Amado da Gattai, a modernidade não ofuscou seu brilho.
Sua riqueza preservada impressiona e atrai a todos.
Das suas boates contemporâneas invadidas pelos aspirantes da middle class, que exalam lisergia nos movimentos, gulosos, enfastiados, arrotam portanto suas sofreguidões.
Iluminados pela lua, eles "brindam a vida" e entre um clichê ou outro desrespeitam a noite chamando-a "de criança", na companhia de seus destilados, sorriem, desvairados, atordoados, anestesiados.
A cerveja, ora veja, é a estrela da noite e o regalo de todos à mesa, todos apreciam e "bebem com moderação".
Suas alternativas atraem, mistura-se jazz, pop, mangue, samba, rock and roll...
Um bairro lúdico e místico.
Seus largos e praças acolhem a todos os fumantes que livremente exalam e libam a fumança nicotínica de seus cigarros feito um balé em praça pública.
E todos refocilam-se madrugada a fora, usufruindo reciprocamente uns aos outros...
E quando o sol ufano se ergue e revela toda a beleza do mar, aí o rio se enche de filhos, de peixes para presentear e tornar a festejar sua yeyé omo ejá, sua mãe Iemanjá.
"É pra trazer Axé".